Centenário
de Rebolo !
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Retrospectiva
do pintor paulistano reúne cerca de 100 obras,
além de fotos, objetos e documentos históricos.
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A
exposição “Rebolo – 100 anos”,
promovida no Museu de Arte Moderna, na cidade de São
Paulo, relembrou a arte paulista. A mostra reuniu cerca
de 100 óleos de Francisco Rebolo Gonsales (1902-1980),
produzidos entre 1932 e 1978. A retrospectiva integrou
a comemoração do centenário de nascimento
do pintor paulistano, um dos principais nomes do chamado
“segundo momento” do modernismo brasileiro.
A homenagem também incluiu o lançamento
de um site especialmente, que foi criado para revelar
as características e as principais obras de sua
carreira. Além de mostras paralelas em galerias
de São Paulo e a edição de um livro
sobre o artista.
Disposta em ordem cronológica, “Rebolo –
100 anos” reconstituiu o percurso temático
da obra do artista, dividida em quatro módulos,
de acordo com as várias fases que definiram suas
investigações plásticas. Trouxe paisagens
do campo, urbanas e imaginárias, retratos e auto-retratos,
trabalhos com modelo vivo e composições
com figuras e naturezas-mortas.
A exposição começou em um painel
com foto e texto de apresentação, ao lado
de uma cronologia biográfica. Publicações,
desenhos, paletas e pincéis do artista ficaram
em exibição em três vitrines dispostas
na galeria. Além disso, um vídeo de 20 minutos
foi projetado em tempo integral durante a mostra.
A
história do pintor
Filho
de imigrantes espanhóis, Francisco Rebolo começou
a trabalhar como pintor de parede e decorador. De 1917
a 1930, jogou como ponta-direita nos times de futebol
do São Bento, Ypiranga e Corinthians. O último,
inclusive, marcou a transição do artista
dos gramados para as telas: é ele o autor do símbolo
definitivo da equipe, acrescentando, na década
de 30, a âncora e os remos ao então distintivo
oficial, que trazia apenas o círculo em que flana
a bandeira do Estado de São Paulo.
Um ano após “pendurar as chuteiras”,
Rebolo passou a dedicar-se à “pintura de
liso”, eufemismo para pintura de parede, e à
profissão de decorador. Em 1933, optou pela pintura
de cavalete e, no ano seguinte, alugou uma sala do Palacete
Santa Helena – hoje demolido –, na Praça
da Sé, centro de São Paulo, onde montou
seu ateliê.
Quando passou a dividir uma segunda sala do edifício
com Mário Zanini, aproximou-se de artistas como
Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, Fúlvio
Pennacchi e Manuel Martins. Formou-se, assim, o núcleo
de criadores “operários” batizado pela
crítica de arte de Grupo Santa Helena.
Tachados de “acadêmicos” pelos modernos
da “fase heróica” e de “futuristas”
pelos acadêmicos, os santelenistas destacaram-se
pelas preocupações com aspectos técnicos
da pintura. Para Rebolo, por exemplo, era fundamental
o estudo do acabamento e do caráter artesanal de
seus quadros. No resgate da natureza-morta, gênero
abandonado pelos primeiros modernistas, o artista privilegiou
composições em que os objetos distribuídos
sobre a mesa dividiam a cena com reproduções
de telas famosas ao fundo. Deste período, destaca-se
a obra “Composição”, de 1940,
em que aparece reproduzido o quadro “Girassóis”,
de Van Gogh.
Se para os modernistas de 22 as referências estéticas
vinham da França, em especial, e da Alemanha, para
os integrantes do grupo Santa Helena eram mais importantes
os trabalhos originários da Itália, de grupos
como o Valori Plastici e o Novecento, os dois cultores
de uma pintura equilibrada e realista, próxima
dos impressionistas e dos pós-impressionistas.
Acrescenta-se a essas características do “segundo
modernismo” o pendor político, que, no caso
de Rebolo, manifestou-se, também, em atuações
fora da esfera do ateliê. Em 1936, o pintor participou
da fundação do Sindicato dos Artistas Plásticos
de São Paulo. No ano seguinte, encabeçou
a Família Artística Paulista, junto a um
grupo de artistas da cidade que defendem uma vanguarda
“gradativa”, que não negue os precedentes.
E, quase dez anos mais tarde, ajudou a fundar o Clube
dos Artistas e Amigos da Arte, mais popular como Clubinho.
A associação teve, até sua dissolução,
no final dos anos 60, forte importância para a divulgação
dos artistas de São Paulo.
Até fins da década de 40, Rebolo concentrou-se
na confecção de paisagens ao ar livre, seja
no interior do Estado de São Paulo, no litoral
ou nos subúrbios paulistas, nos bairros paulistanos
do Tremembé e do Cambuci. O interesse pela arquitetura
ressaltou, em um primeiro instante, as estruturas unitárias
de composição e a função construtiva
de sua pintura. Depois, revelou-se espontânea, feita
de tons suaves, sem fortes contornos na representação
de árvores, nuvens e outros elementos. A influência
maior aqui é de Cézanne. A primeira exposição
individual ocorreu em 1944. Participa das três primeiras
edições da Bienal de São Paulo. A
natureza, a paisagem, norteou toda sua produção.
A figura humana, quando entrou no campo da imagem, foi
absorvida e envolvida ou pela imensidão da terra
ou pelas manchas verdes.
O artista voltou ao rigor das paisagens urbanas quando
viajou à Europa, em 1954, após vencer o
Prêmio de Viagem ao Exterior do 3º Salão
de Arte Moderna (1953), no Rio de Janeiro. Por dois anos,
registra fragmentos da arquitetura européia, em
particular a italiana renascentista. De volta ao Brasil,
expõe, em 1957, no MAM, as telas pintadas na Europa.
Um enfarte aos 60 anos de idade o afastou da prática
artística. Retornou ao trabalho em 1960 e, por
cerca de cinco anos, dedicou-se ao desenho, à aquarela
e à gravura, influenciado pelas pinturas etruscas.
As tintas, então, foram mais encorpadas, alternando
texturas e relevo com o uso de espátula. Na década
seguinte, a pesquisa sobre volumes coloridos desembocou
na retomada dos pincéis, do lirismo e da diluição
dos elementos, próprios do início de carreira.
Esta última fase, até os anos de 1980, foi
pontuada por paisagens em óleo realizadas durante
viagens ao nordeste, ao sul e ao litoral do país.
Reportagem: Fernanda Sciascio
Edição: Rosa Buccino